O Agronegócio que Alimenta o Mundo. Como a Pecuária Brasileira Está Redesenhando a Economia, a Logística e o Comércio Global

Clemente Augusto Guedes

CEO & Founder | G1 Brasil Group | Strategist in Risk Management, Insurance, Road Freight Transport (TRC) and Supply Chain | Especialista em ISO 31000 | Conectando estratégia a gestão de riscos.

30 de julho de 2026

 

Da Serie: ◢🇧🇷◣"Brasil que Move o Brasil".

Por Clemente Augusto Guedes

 

Da genética bovina à exportação internacional, os desafios que definirão o futuro da maior cadeia pecuária do planeta.

1. O Brasil não produz apenas carne. Produz influência.

Enquanto grande parte do mundo debate segurança alimentar, o Brasil consolidou uma posição única.

Somos detentores do maior rebanho comercial do planeta.

Mais do que uma atividade rural, a pecuária movimenta milhares de empresas ligadas à genética, nutrição animal, transporte, tecnologia, seguros, rastreabilidade, exportação, processamento industrial e serviços financeiros.

Poucos setores possuem um efeito multiplicador tão grande sobre a economia brasileira.

 

 

A pergunta deixou de ser:

"Quanto o Brasil produz?"

Hoje a pergunta correta é:

Quem conseguirá atender um mercado global cada vez mais exigente?

2. Os Números que Explicam a Liderança da Pecuária Brasileira

A pecuária bovina brasileira é muito mais do que uma atividade agropecuária. Trata-se de uma das maiores cadeias produtivas do mundo, responsável por movimentar bilhões de reais todos os anos, impulsionar o desenvolvimento regional, gerar empregos e fortalecer a posição estratégica do Brasil na segurança alimentar global.

Com um rebanho comercial de aproximadamente 235 milhões de cabeças, o Brasil possui um dos maiores efetivos bovinos do planeta e consolidou-se como o maior exportador mundial de carne bovina, abastecendo mais de uma centena de países em todos os continentes.

As exportações brasileiras de carne bovina já superam US$ 13 bilhões por ano, refletindo não apenas o aumento da demanda internacional, mas também a evolução da qualidade sanitária, da genética, da produtividade e da capacidade logística do setor.

A produção está distribuída por praticamente todo o território nacional, com destaque para estados como Mato Grosso, Goiás, Mato Grosso do Sul, Pará, Minas Gerais, Rondônia, Tocantins e São Paulo, formando uma cadeia integrada que conecta produtores rurais, confinamentos, frigoríficos, transportadoras, tradings, portos e mercados internacionais.

Além da relevância econômica, a pecuária exerce um importante papel social. O setor gera milhões de empregos diretos e indiretos, envolvendo atividades ligadas à produção animal, nutrição, medicina veterinária, pesquisa genética, transporte, indústria frigorífica, seguros, comércio exterior, tecnologia e serviços especializados.

Sua contribuição também é decisiva para o agronegócio brasileiro, um dos principais motores da economia nacional. A cadeia da carne bovina participa de forma significativa do Produto Interno Bruto (PIB) do agronegócio, movimentando investimentos em infraestrutura, inovação, logística, crédito rural e industrialização, além de contribuir de maneira expressiva para o superávit da balança comercial brasileira.

Mais do que produzir carne, o Brasil desenvolveu um dos ecossistemas pecuários mais completos e competitivos do mundo, combinando escala, tecnologia, melhoramento genético, sustentabilidade, capacidade de exportação e integração logística. Essa combinação tornou a pecuária nacional um ativo estratégico não apenas para a economia brasileira, mas também para o abastecimento alimentar global.

3. A Revolução da Genética Bovina: O Maior Salto de Produtividade da Pecuária Brasileira

A transformação da pecuária brasileira nas últimas quatro décadas não foi impulsionada apenas pela expansão territorial, pelo aumento do rebanho ou pela abertura de novos mercados. O verdadeiro diferencial competitivo que consolidou o Brasil como uma das maiores potências mundiais na produção e exportação de carne bovina foi a evolução da genética animal.

O crescimento da produtividade deixou de depender exclusivamente da quantidade de animais e passou a ser determinado pela qualidade genética de cada indivíduo. Em outras palavras, a pecuária moderna substituiu o conceito de "produzir mais bois" pelo de "produzir animais mais eficientes, rentáveis e sustentáveis".

Essa mudança alterou completamente a lógica da atividade pecuária. Hoje, um único animal geneticamente superior é capaz de gerar maior retorno econômico do que diversos animais sem melhoramento, graças à combinação de características que elevam o desempenho produtivo e reduzem custos ao longo de toda a cadeia.

A genética deixou de ser uma ferramenta exclusiva dos grandes criadores para tornar-se um dos principais ativos estratégicos da pecuária nacional, influenciando diretamente indicadores como produtividade por hectare, taxa de prenhez, idade ao abate, conversão alimentar, rendimento de carcaça, qualidade da carne e eficiência reprodutiva.

A Ciência Transformando a Pecuária

A incorporação de tecnologias de reprodução assistida e biotecnologia permitiu acelerar décadas de seleção genética em poucos anos.

Entre as principais ferramentas que impulsionaram essa transformação destacam-se:

Inseminação Artificial em Tempo Fixo (IATF)

A IATF revolucionou a reprodução bovina ao eliminar a necessidade de identificação individual do cio, permitindo inseminar grandes lotes de matrizes de forma sincronizada.

Os benefícios são expressivos:

aceleração do melhoramento genético do rebanho;

utilização de touros geneticamente superiores;

aumento das taxas de prenhez;

maior uniformidade dos lotes;

redução do intervalo entre partos;

melhor planejamento da estação de monta;

incremento significativo da produtividade por matriz.

Hoje, milhões de matrizes são inseminadas anualmente no Brasil, tornando a IATF uma das tecnologias de maior impacto econômico na pecuária nacional.

As Principais Raças Bovinas Criadas no Brasil: Genética, Produtividade e Competitividade Global

A evolução da pecuária brasileira não pode ser compreendida apenas pelo crescimento do rebanho. Nas últimas décadas, o maior avanço ocorreu na qualidade genética dos animais, permitindo elevar significativamente a produtividade, reduzir custos operacionais e atender aos rigorosos padrões sanitários e comerciais dos mercados internacionais.

O Brasil possui um dos programas de melhoramento genético mais avançados do mundo, resultado da integração entre centros de pesquisa, universidades, associações de criadores, empresas de biotecnologia e produtores rurais. Técnicas como inseminação artificial em tempo fixo (IATF), fertilização in vitro (FIV), transferência de embriões, avaliação genômica e seleção por marcadores moleculares vêm acelerando o ganho genético do rebanho nacional.

A escolha da raça deixou de ser apenas uma decisão zootécnica e passou a ser uma estratégia empresarial. Cada raça apresenta características específicas relacionadas à fertilidade, adaptação climática, eficiência alimentar, velocidade de crescimento, qualidade da carne e retorno econômico, influenciando diretamente a rentabilidade da atividade.

Nelore: A Base da Pecuária Brasileira

O Nelore representa aproximadamente 80% do rebanho bovino nacional, consolidando-se como a principal raça de corte do Brasil e um dos maiores pilares da competitividade do agronegócio brasileiro.

Originário da Índia e amplamente adaptado às condições tropicais, o Nelore destaca-se por sua excepcional rusticidade, resistência a altas temperaturas, capacidade de aproveitar pastagens de menor qualidade e elevada resistência a parasitas e doenças tropicais.

Entre seus principais diferenciais estão:

Alta fertilidade e longevidade reprodutiva.

Facilidade de parto, reduzindo perdas produtivas.

Excelente desempenho em sistemas extensivos e semi-intensivos.

Baixo custo de manutenção.

Grande capacidade de adaptação às diferentes regiões brasileiras.

Essas características tornam o Nelore a principal matriz genética utilizada em programas de cruzamento industrial, contribuindo para elevar a produtividade sem comprometer a adaptação ao ambiente tropical.

Angus: Qualidade Superior e Mercado Premium

Reconhecida mundialmente pela excelência da carne, a raça Angus tornou-se referência para produtores que buscam agregar valor à produção e atender mercados de maior exigência.

Sua principal característica é o elevado marmoreio gordura intramuscular responsável pela maciez, suculência e sabor da carne atributo altamente valorizado por consumidores e importadores internacionais.

Além da qualidade do produto final, o Angus apresenta:

Elevada precocidade sexual.

Ganho de peso acelerado.

Excelente conversão alimentar em sistemas de confinamento.

Carcaças com alto rendimento frigorífico.

Forte demanda nos programas de carne certificada.

No Brasil, o Angus é amplamente utilizado em cruzamentos com matrizes Nelore, originando animais que combinam rusticidade tropical com elevado desempenho produtivo e qualidade superior da carne.

Brahman: Eficiência em Ambientes Tropicais

Desenvolvido para suportar condições climáticas severas, o Brahman reúne características de grande interesse para sistemas produtivos em regiões de altas temperaturas.

Entre seus diferenciais destacam-se:

Elevada resistência ao calor e à radiação solar.

Excelente desempenho em ambientes de baixa disponibilidade de forragem.

Resistência a ectoparasitas e doenças tropicais.

Boa habilidade materna.

Longevidade produtiva.

Sua genética é amplamente utilizada em programas de cruzamento para aumentar a rusticidade e a eficiência dos rebanhos destinados tanto ao mercado interno quanto à exportação.

Senepol: Eficiência Produtiva e Carne de Alto Valor

Originário da Ilha de Saint Croix, no Caribe, o Senepol vem conquistando espaço na pecuária brasileira devido ao excelente equilíbrio entre produtividade e adaptação ao clima tropical.

Entre suas principais vantagens destacam-se:

Precocidade de acabamento.

Excelente conversão alimentar.

Carne macia e de elevada qualidade.

Ausência de chifres (mocho), reduzindo acidentes durante o manejo.

Alta fertilidade e facilidade de parto.

O Senepol apresenta excelente desempenho em programas de cruzamento industrial, permitindo produzir animais adaptados ao clima brasileiro com elevado padrão de qualidade para mercados premium.

Hereford: Tradição e Excelência em Carne Premium

Com origem britânica, o Hereford é reconhecido internacionalmente pela produção de carne de alta qualidade e excelente rendimento de carcaça.

No Brasil, sua criação concentra-se principalmente nos estados da Região Sul, onde as condições climáticas favorecem seu desempenho.

Seus principais atributos incluem:

Carne macia e altamente marmorizada.

Elevado rendimento frigorífico.

Excelente eficiência alimentar.

Temperamento dócil, facilitando o manejo.

Grande aceitação em mercados especializados.

Sua genética também participa de importantes programas de cruzamento voltados à produção de carne certificada.

Braford: A Integração Entre Rusticidade e Qualidade

Resultado do cruzamento entre Hereford e Zebuínos, especialmente Nelore, o Braford tornou-se uma das principais opções para sistemas produtivos que exigem equilíbrio entre adaptação climática e qualidade da carne.

Entre seus diferenciais destacam-se:

Maior resistência ao calor.

Excelente desempenho em pastagens tropicais.

Ganho de peso acelerado.

Carne com elevado padrão de qualidade.

Alta eficiência reprodutiva.

Sua versatilidade permite utilização tanto em sistemas extensivos quanto em confinamentos de alta produtividade.

Brangus: Eficiência Econômica e Alto Desempenho

Originado do cruzamento entre Angus e Brahman, o Brangus reúne características que atendem às exigências da pecuária moderna.

Sua genética combina:

Rusticidade adaptada ao clima tropical.

Excelente conversão alimentar.

Ganho de peso acelerado.

Precocidade sexual.

Carne premium com ótimo marmoreio.

Maior resistência às condições ambientais brasileiras.

Por essas características, o Brangus vem sendo cada vez mais utilizado em propriedades voltadas para a produção intensiva e para mercados internacionais de alto valor agregado.

A Genética Como Vantagem Competitiva

A tendência da pecuária brasileira aponta para uma utilização crescente de programas de melhoramento genético baseados em inteligência de dados, avaliação genômica, seleção de características econômicas e cruzamentos industriais planejados.

O objetivo já não é apenas produzir mais animais, mas produzir bovinos mais eficientes, sustentáveis e rentáveis, capazes de converter menos alimento em mais carne, reduzir emissões ambientais, melhorar índices reprodutivos e atender aos rigorosos padrões sanitários e de qualidade exigidos pelos mercados internacionais.

Nesse contexto, a genética deixou de ser apenas um diferencial tecnológico para tornar-se um dos principais ativos estratégicos da pecuária brasileira. Ela representa um dos fatores que sustentam a liderança do Brasil como potência mundial na produção e exportação de carne bovina, consolidando uma cadeia produtiva cada vez mais eficiente, competitiva e preparada para atender às demandas da segurança alimentar global.

4. Os Grandes Desafios da Pecuária Brasileira: Competitividade Além da Porteira

A competitividade da pecuária brasileira não é definida apenas pela produtividade dentro da fazenda. Ela depende da eficiência de toda a cadeia produtiva, desde a disponibilidade de insumos até a entrega da carne ao consumidor final. Em um mercado globalizado, qualquer falha operacional pode comprometer margens, contratos de exportação e a reputação do produto brasileiro.

Entre os principais desafios está a volatilidade dos custos de produção. Insumos como milho, soja, fertilizantes, medicamentos veterinários e energia representam parcela significativa dos custos operacionais e são fortemente influenciados por fatores climáticos, geopolíticos e cambiais.

As mudanças climáticas também passaram a integrar o planejamento estratégico do setor. Estiagens prolongadas, queimadas, eventos climáticos extremos e a crescente pressão sobre a gestão dos recursos hídricos impactam diretamente a produtividade das pastagens, a disponibilidade de alimento e o desempenho dos rebanhos.

Outro fator determinante é o acesso ao crédito rural. Apesar dos programas oficiais de financiamento, muitos produtores enfrentam desafios relacionados às taxas de juros, exigências de garantias e disponibilidade de recursos para investir em tecnologia, infraestrutura e expansão da produção.

A sucessão familiar e a escassez de mão de obra qualificada também preocupam o setor. A incorporação de tecnologias digitais, automação e pecuária de precisão exige profissionais cada vez mais capacitados para operar sistemas integrados de gestão e produção.

Somam-se a esses fatores as crescentes exigências relacionadas à sustentabilidade. A redução das emissões de carbono, a recuperação de pastagens degradadas, o uso racional dos recursos naturais e o cumprimento das legislações ambientais deixaram de ser apenas compromissos socioambientais para se tornarem requisitos de acesso aos mercados internacionais e de atração de investimentos.

5. Rastreabilidade: De Diferencial Competitivo a Requisito para Exportação

Se há alguns anos a rastreabilidade representava um diferencial competitivo, hoje ela se tornou uma exigência dos principais mercados consumidores.

Importadores, frigoríficos e redes varejistas desejam conhecer toda a trajetória do animal, desde o nascimento até a comercialização da carne. Informações como origem, identificação individual, alimentação, calendário sanitário, vacinação, movimentações entre propriedades, condições de bem-estar animal, transporte e frigorífico de processamento passaram a compor uma verdadeira identidade produtiva do rebanho.

Essa transparência fortalece a confiança dos compradores, reduz riscos sanitários, facilita auditorias e amplia o acesso a mercados de maior valor agregado. Mais do que uma obrigação regulatória, a rastreabilidade tornou-se uma poderosa ferramenta de gestão, agregação de valor e competitividade internacional.

6. Quem Compra a Carne Brasileira?

A carne bovina brasileira está presente em mais de uma centena de países, consolidando o Brasil como o maior exportador mundial do produto. Entre os principais destinos estão China, Estados Unidos, Emirados Árabes Unidos, Chile, Egito, União Europeia, Hong Kong, Filipinas e México.

Cada mercado, entretanto, possui protocolos próprios relacionados à sanidade animal, certificações, limites de resíduos, rastreabilidade, bem-estar animal, idade dos animais, requisitos religiosos, documentação e padrões de qualidade.

Essa diversidade de exigências transforma a conformidade regulatória em um importante diferencial competitivo, exigindo elevado nível de gestão ao longo de toda a cadeia produtiva.

7. Os Desafios Regulatórios de um Mercado Cada Vez Mais Exigente

A internacionalização da pecuária brasileira elevou significativamente o nível das exigências regulatórias.

Além do cumprimento das normas sanitárias nacionais, produtores e exportadores precisam atender protocolos internacionais relacionados à rastreabilidade individual, certificações de qualidade, programas de sustentabilidade (ESG), bem-estar animal, controle de resíduos de medicamentos veterinários, vacinação, manutenção do status sanitário frente à febre aftosa e, cada vez mais, indicadores de emissões de carbono.

A capacidade de atender simultaneamente a esses requisitos tornou-se um fator decisivo para ampliar mercados, preservar contratos de exportação e fortalecer a imagem da carne brasileira no cenário internacional.

8. O Transporte: O Elo Invisível da Competitividade

A excelência genética, a produtividade no campo e a qualidade da carne podem ser comprometidas se a logística não operar com eficiência. O transporte é um dos pilares da competitividade da pecuária brasileira e exerce influência direta sobre custos, perdas operacionais, bem-estar animal e cumprimento de prazos de exportação.

O sucesso da cadeia depende da integração entre planejamento logístico, gerenciamento de riscos, monitoramento em tempo real, rastreamento, seguros especializados, controle documental, conformidade regulatória e, no caso das carnes refrigeradas e congeladas, da manutenção rigorosa da cadeia do frio.

Cada etapa logística precisa ser cuidadosamente coordenada para garantir a integridade da carga, reduzir perdas e assegurar o atendimento aos protocolos nacionais e internacionais.

Em operações de exportação, um atraso de poucas horas, uma falha documental, uma interrupção na refrigeração ou um incidente durante o transporte podem resultar em prejuízos milionários, perda de contratos e comprometimento da credibilidade construída ao longo de anos.

Na pecuária moderna, a logística deixou de ser apenas uma atividade operacional para tornar-se um fator estratégico de competitividade, conectando produção, indústria, comércio exterior, gestão de riscos e seguros em uma única cadeia de valor.

9. Seguros: O Pilar da Continuidade Financeira da Pecuária Brasileira

A pecuária moderna movimenta bilhões de reais todos os anos e está exposta a riscos que vão muito além da porteira da fazenda. Eventos climáticos extremos, doenças, acidentes durante o transporte, falhas operacionais, incêndios, oscilações de mercado e interrupções logísticas podem comprometer investimentos construídos ao longo de décadas.

Nesse cenário, o seguro deixou de ser apenas uma exigência contratual para se tornar um instrumento estratégico de proteção patrimonial, estabilidade financeira e continuidade operacional.

A cadeia pecuária brasileira demanda soluções específicas para cada etapa da produção e comercialização. Entre as principais modalidades destacam-se:

Seguro Rural, protegendo a atividade agropecuária contra eventos previstos em apólice, incluindo riscos climáticos em determinadas operações.

Seguro Pecuário, destinado à proteção econômica do rebanho contra perdas decorrentes de acidentes, doenças cobertas e outros eventos previstos contratualmente.

Seguro de Transporte de Animais Vivos, essencial para reduzir os impactos financeiros de acidentes durante o deslocamento entre fazendas, confinamentos, leilões e frigoríficos.

Seguro de Transporte Nacional e Internacional de Carnes, protegendo cargas refrigeradas e congeladas durante toda a cadeia logística até os mercados consumidores.

Seguro Patrimonial Rural, cobrindo instalações, confinamentos, currais, armazéns, máquinas, equipamentos e benfeitorias.

Seguros de Responsabilidade Civil, destinados à proteção contra danos causados a terceiros durante as operações agropecuárias e logísticas.

Entretanto, a contratação de seguros, por si só, não elimina os riscos. As seguradoras avaliam cada vez mais a maturidade da gestão do produtor e dos operadores logísticos antes de definir limites de cobertura, franquias e custos. Critérios como rastreabilidade, biossegurança, programas sanitários, gerenciamento de riscos, monitoramento de cargas, controle documental, capacitação das equipes e histórico operacional influenciam diretamente a aceitação e a precificação dos riscos.

É nesse ponto que gestão de riscos e seguros deixam de ser áreas independentes e passam a atuar de forma complementar. A prevenção reduz a frequência e a severidade das perdas; o seguro preserva a capacidade financeira da operação quando eventos inesperados ocorrem.

Em um mercado internacional cada vez mais exigente, proteger a cadeia pecuária significa muito mais do que indenizar prejuízos. Significa preservar contratos de exportação, garantir o abastecimento, manter a confiança dos compradores globais, proteger o fluxo de caixa das empresas e assegurar a competitividade do agronegócio brasileiro.

No futuro da pecuária, produtividade, tecnologia, rastreabilidade, logística, gerenciamento de riscos e seguros formarão um único ecossistema de competitividade. As empresas que compreenderem essa integração estarão mais preparadas para enfrentar crises, acessar mercados de maior valor agregado e consolidar sua posição em uma cadeia global cada vez mais complexa e estratégica.

10. A Logística Começa Muito Antes do Caminhão

Quando se fala em logística na pecuária, é comum associá-la apenas ao transporte dos animais ou da carne até os frigoríficos, centros de distribuição e portos. Na prática, a logística começa muito antes da partida do veículo e representa um dos principais fatores para garantir eficiência operacional, conformidade regulatória e competitividade internacional.

Cada movimentação exige um planejamento criterioso que envolve programação de embarque, disponibilidade de veículos adequados, definição das rotas mais eficientes, gestão do tempo de viagem, documentação obrigatória e integração entre produtores, transportadores, frigoríficos e órgãos fiscalizadores.

A emissão da Guia de Trânsito Animal (GTA), o cumprimento das exigências sanitárias, as inspeções veterinárias, a rastreabilidade, o respeito às normas de bem-estar animal e a conformidade documental são etapas indispensáveis para assegurar a legalidade da operação e preservar o acesso aos mercados consumidores.

Ao mesmo tempo, a logística moderna incorpora ferramentas de gerenciamento de riscos, monitoramento em tempo real, rastreamento por satélite, telemetria, controle de temperatura na cadeia do frio, seguros especializados e planos de contingência para minimizar perdas operacionais, reduzir impactos financeiros e garantir a integridade da carga.

Na pecuária de exportação, logística deixou de ser uma atividade operacional para tornar-se um diferencial estratégico. A eficiência da cadeia logística influencia diretamente custos, produtividade, segurança, qualidade do produto e a confiança dos compradores internacionais.

11. O Futuro da Pecuária: Tecnologia, Sustentabilidade e Inteligência de Dados

A próxima grande transformação da pecuária brasileira será impulsionada pela convergência entre biotecnologia, inteligência artificial, conectividade e sustentabilidade. O desafio deixará de ser apenas produzir mais, passando a produzir com maior eficiência, menor impacto ambiental e total rastreabilidade.

Tecnologias como Inteligência Artificial, sensores conectados por Internet das Coisas (IoT), drones, imagens de alta resolução por satélite e plataformas de análise de dados já permitem monitorar pastagens, identificar precocemente problemas sanitários, acompanhar o comportamento dos animais e apoiar decisões estratégicas em tempo real.

A adoção da identificação eletrônica individual, da genética molecular, da automação de processos e do blockchain amplia a transparência da cadeia produtiva, fortalece a rastreabilidade e aumenta a confiança dos mercados consumidores quanto à origem e à qualidade dos alimentos.

Ao mesmo tempo, o crescimento do uso de bioinsumos, a recuperação de pastagens degradadas, os sistemas integrados de produção e a comercialização de créditos de carbono colocam a sustentabilidade no centro da competitividade do agronegócio.

Nesse novo cenário, os produtores que integrarem inovação tecnológica, gestão de dados, logística eficiente, gerenciamento de riscos e responsabilidade ambiental estarão mais preparados para atender às exigências dos mercados internacionais e liderar a próxima geração da pecuária mundial. O futuro do setor não será definido apenas pelo tamanho do rebanho, mas pela capacidade de transformar informação, tecnologia e sustentabilidade em vantagem competitiva.

Conclusão

O Brasil possui terras, tecnologia, genética, clima, capacidade produtiva e conhecimento técnico para continuar liderando o mercado mundial de carne bovina.

Entretanto, o próximo ciclo de crescimento não será definido apenas pelo tamanho do rebanho.

Será determinado pela capacidade de integrar produtividade, sustentabilidade, rastreabilidade, inteligência logística e gestão de riscos.

Quem compreender essa transformação deixará de competir apenas pelo preço e passará a disputar valor, confiança e acesso aos mercados mais exigentes do mundo.

A pecuária brasileira não está apenas alimentando bilhões de pessoas.

Está moldando uma nova geopolítica da segurança alimentar global.

Clemente Augusto GuedesCEO & Founder do Grupo G1 Brasil Ltda. Conselheiro Estratégico em Logística, Agronegócio, Gerenciamento de Riscos e Seguros / Especialista em ISO 31000 – Risk Management /Transformando gestão de riscos em vantagem competitiva para o transporte, a logística e o agronegócio.

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